A reta final antes do lançamento de Grand Theft Auto VI, marcado para 19 de novembro, tem sido marcada por um capítulo que a Rockstar Games certamente não planejou: uma sequência de vazamentos promovida por um grupo (ou indivíduo) que assina como CyberLeek, que já rendeu à Take-Two Interactive — dona da Rockstar — mais de US$ 2 bilhões em valor de mercado perdido e uma disputa judicial para tentar identificar quem está por trás dos ataques.

Como começou

Os vazamentos começaram em 18 de agosto, quando vídeos de gameplay ainda inéditos passaram a circular nas redes com uma marca d'água identificando a autoria como "CyberLeek". Nos dias seguintes, o volume de material cresceu: imagens do mapa completo do jogo, cenas de cutscenes, trechos ligados às estações de rádio e, ao todo, cerca de 26 minutos de conteúdo — um número que, não por acaso, se aproxima da duração do material oficial que a própria Rockstar reservava para revelar depois.

O detalhe que mais preocupou analistas e a própria empresa é que o material não parece ser apenas imagens roubadas: os vídeos indicam acesso a uma versão jogável do jogo, com o personagem Jason em ação e uma cena específica — um tiro na direção da câmera revelando a palavra "leek" — usada como assinatura do grupo.

O motivo declarado

Em mensagens anexadas ao material vazado, o CyberLeek enquadrou a ação como um protesto contra práticas comerciais da indústria: a decisão da Rockstar de lançar GTA VI exclusivamente em formato digital (cópias físicas virão apenas com um código de download, algo inédito nos 28 anos da franquia) e a reserva de conteúdo extra para a edição "Ultimate", vendida a US$ 100. Em uma das mensagens que acompanham os vídeos, o grupo resumiu a crítica:

"Publishers sell licenses and call them purchases. They ship unfinished games and call them living services."

O CyberLeek também criou uma criptomoeda de meme, a $CYBERLEEK, presente nas marcas d'água de boa parte do material — o token, cujo valor depende inteiramente da especulação gerada pelo próprio escândalo, seria usado para financiar um "projeto secreto" não detalhado.

Impostores lucrando com o caos no X

Assim que o vazamento viralizou, surgiram no X diversas contas se passando pelo CyberLeek para atrair seguidores e, em alguns casos, pedir pagamento por "mais vazamentos" — o tipo de golpe que a organização Stop Killing Games, conhecida por campanhas de preservação de jogos, alertou publicamente que ninguém deveria pagar:

"The group is using the leak to promote a memecoin, attaching crypto links and QR codes to the footage and asking people to pay for more. Do not send these people your money, no matter how much sympathy you may feel for their actions. [...] History isn't on the leaker's side either: the last person who did this to Rockstar, back in 2022, ended up with an indefinite hospital order." — ver publicação no X

A comunidade de fãs rapidamente identificou que nenhuma das contas que se diziam "oficiais" do CyberLeek era autêntica — os perfis @cyberleek_ar_io, @cyberleekario e @MrCyberLeek foram todos apontados como impostores antes mesmo de a Take-Two conseguir uma ordem judicial contra eles. O próprio CyberLeek, marcando presença apenas pelas marcas d'água nos vídeos vazados, fez questão de deixar isso escrito num dos arquivos: "CYBERLEEK DOES NOT HAVE TWITTER" — ou seja, não possui nenhuma conta na rede social, driblando qualquer tentativa de rastreá-lo por ali.

A resposta da Take-Two: intimações a Microsoft, Discord, X e YouTube

Sem se pronunciar publicamente sobre o conteúdo em si, a Take-Two Interactive partiu para a via judicial. Em 20 de agosto, a empresa protocolou duas intimações federais na Justiça do Distrito Sul de Nova York contra a Microsoft e o Discord, pedindo dados de conta e de dispositivo ligados ao usuário por trás do CyberLeek, com base no Digital Millennium Copyright Act (DMCA) — mecanismo que permite a um detentor de direitos autorais pedir a identidade de um infrator anônimo sem abrir um processo completo. Ambas as empresas tinham até 4 de setembro para responder.

Dias depois, a Take-Two ampliou a ofensiva com intimações adicionais ao X e ao YouTube, mirando justamente as contas impostoras citadas acima — mesmo com a comunidade já tendo sinalizado que eram falsas antes do pedido ser protocolado. Um tribunal federal já concedeu as intimações, embora nenhuma das empresas tenha confirmado publicamente o envio de registros até o momento.

O impacto no mercado

O efeito no valor da Take-Two foi imediato: as ações da empresa (TTWO, na Nasdaq) caíram cerca de 5% na primeira semana após o início dos vazamentos, uma perda de valor de mercado superior a US$ 2 bilhões. Segundo levantamentos financeiros, o papel saiu de cerca de US$ 248 antes do vazamento de 18 de agosto para algo em torno de US$ 233 dias depois, e voltou a cair no fim de agosto e início de setembro, fechando a US$ 219,70 em 31 de agosto — pressão que analistas atribuem tanto ao escândalo quanto a fatores macroeconômicos do mercado de ações no período.

Apesar disso, bancos como Morgan Stanley e JPMorgan mantiveram uma leitura "otimista" sobre o papel, apontando que o interesse institucional e de varejo no lançamento segue alto — as pré-vendas globais já são estimadas em US$ 260 milhões, com projeção de vendas na semana de lançamento próximas de US$ 4,5 bilhões.

Ilustração de um hacker em frente a um computador, em referência aos ataques ao estúdio Imagem ilustrativa de um ataque hacker — não retrata o autor real por trás do CyberLeek, cuja identidade segue desconhecida. Imagem: Pixabay/Wikimedia Commons (domínio público).

O contraponto: a apresentação oficial superou o vazamento

Em meio à crise, a Rockstar seguiu com seu próprio calendário de marketing. Em 27 de agosto, a empresa lançou "Grand Theft Auto VI: An Extended Look", uma apresentação de 26 minutos capturada inteiramente em PlayStation 5, estreada primeiro na Netflix às 15h (horário de Brasília) e depois no YouTube e no site oficial do jogo. O material mostra os protagonistas Jason Duval e Lucia Caminos circulando por Vice City e pelo estado fictício de Leonida, com trocas de personagem em tempo real, novas animações de combate corpo a corpo e uma quantidade inédita de comportamentos de NPCs.

"An Extended Look" — apresentação oficial de 26 minutos da Rockstar Games, exibida na Netflix e no YouTube em 27 de agosto.

Trailer 2 oficial de GTA VI, divulgado pela Rockstar Games.

Segundo a própria Rockstar, a resposta do público ao material oficial "sobrecarregou" a Netflix e a Twitch, sinal de que o vazamento não conseguiu esfriar o interesse pelo jogo — pelo contrário, analistas apontam que os dois eventos juntos mantiveram GTA VI no topo das conversas globais nas semanas seguintes.

O que vem agora

Com a Rockstar reafirmando internamente que o jogo está praticamente finalizado, a expectativa é que a Justiça americana avance sobre as intimações enviadas a Microsoft, Discord, X e YouTube nas próximas semanas — o que pode, enfim, revelar a identidade por trás do CyberLeek. Até lá, a recomendação de especialistas em segurança e da própria comunidade de jogadores é a mesma repetida pelo Stop Killing Games: não repassar dinheiro a quem lucra com o vazamento, e aguardar o lançamento oficial, previsto para 19 de novembro, exclusivamente para PlayStation 5 e Xbox Series X|S.